Ou: a História de Margarida da Graça Martins, pioneira na industrialização do certam paulista onde nasceu a Vila d´Americanos.
A história fala pouco, digo, quase nada, acerca das mulheres que no Brasil-colônia fizeram acontecer demandas sociais e profissionais, tanto públicas como privadas. Uma dessas mulheres tem nome: Margarida da Graça Martins.
Quem foi Margarida? Setecentista de 82, nascida a 27 de novembro em Santos, litoral paulista, foi criada entre um estilo societário de senhorio e a liberdade de buscar aprendizados – e, assim, Margarida aprofundou conhecimentos (familiares) em torno da atividade açucareira que o pai Manoel José da Graça mantinha com a mãe Anna Maria Cardoso.
Naquela época, a atividade açucareira era renda alta e certa pela influência do Engenho do Governador (leia-se: Martim Affonso de Souza), de 1533 a 1603, quando passou a denominar-se Engenho de São Jorge dos Erasmos (empresa Erasmo Schertz e Filhos / Antuérpia), atividade carreada da Ilha da Madeira pelos portugueses. Foi o ambiente d´yngeño d´assucar que Margarida conheceu já na pré adolescência e que, posteriormente, seria para ela de grande valia profissional.
Praxe social da época, após “a primeira sangrada” uma jovem de 13 “tem ancas pra casar”: e foi o aconteceu com Margarida, casada aos 13 anos com o comerciante de tecidos José Paschoal de Lima. Mas, 3 depois José faleceu e ela vendeu o ´negócio´ voltando à casa da família, em Santos. Entretanto, 10 anos depois, prendada e inteligente, Margarida encontrou parceiro de vida amorosa em Francisco de Paula Martins, sgt-mor, e com ele gerou Ângela, Manoel, Ana, Maria e Belchior. Os seus homens foram-se com a morte do sgt-mor Francisco, pois, o pai havia sido enterrado pouco antes.
Os dois momentos familiares, no oitocentos, fizeram dela uma herdeira de terras, negócios e escravos. O que fazer? Socialmente inquieta, sempre pronta a intervir, Margarida da Graça Martins decidiu expandir os negócios entre o litoral e o sertão: adquiriu sesmaria de 2 léguas-em-quadra entre o Rio Piracicaba e o Ribeirão do Quilombo e para lá se foi, em 1817, com família e escravos.
O que ela sabia do sertão que desembocava lá em Porto Feliz, a velha guarani Araritaguaba? Que “ a terra é boa pra cana d´açúcar e outras plantações, como o algodão”, o que era comum escutar de sertanistas e tropeiros. E havia terra boa canavieira e espaço à venda, pois então, eis que ali, entre a força de dois leitos d´água geravam vida, Margarida da Graça Martins estabeleceu a planta industrial para um poderoso engenho d´açúcar. E ali, também adquiriu da Família Toledo um pequeno engenho para agregar à planta gizada inicialmente, sendo que os Toledo eram o senhorio local até à chegada de Margarida. Dizia-se: “esta é terra dos Toledo”. Mas foi ela, a mulher do engenho d´açúcar, que dotou a região canavieira e algodoeira de estrutura social, incluindo, a doação de terreno para a edificação de uma Capela dedicada a Santa Barbara (dos Toledo), da qual era devota, e entregue em 4 de dezembro de 1818, como marco-zero do povoado.
A notável empreendedora agroindustrial retornou para Santos e, logo, para São Paulo, onde faleceu em 4 de agosto de 1864 (os seus restos mortais foram depois levados honrosamente para Santa Bárbara, em 1967), mas, Margaria da Graça Martins deixou um legado societário só comparável ao da fabulosa mameluca Suzana Dias, que ergueu a vila Sant´Anna de Parnahyba, em 1580, com o mesmo espírito de cidadania plena.
Por outro lado, foi na região barbarense que poucos anos depois se instalaram migrantes norte-americanos a originar a Villa d´Americanos e, com ela, o nascimento da indústria algodoeira e têxtil. Hoje, entre o que foi o canavial d´açúcar e o acerto tecnológico algodoeiro, a vila é a municipalidade de Americana, que deve muito ao desenvolvimento agroindustrial deixado legado por Margarida, no qual se influenciou a gente estadunidense que ali levantou o importante polo têxtil.




