A minha opinião tem o olhar de estrangeiro (um ´quase´ estrangeiro, uma vez que vivo o Brasil há 30 anos), pois, ´estrangeiro´ cujos ancestrais dos Sécs. 14 (quando tomaram nota) e 16 (quando a consideram ´sua´) cercaram, tomaram e aculturaram a Ilha de Brasil com os padres da cristandade: Ilha de Brasil, assim denominada em 12 de fevereiro de 1343 pelo rei Afonso IV em carta ao papa Clemente VI [vide Archivio Segreto Vaticano in ´resposta a João Barcellos´] a anunciar a descoberta de um “páo de tinta´ muito melhor que o páo brasil´ adquirido no oriente.
E hoje, que é 2023, estou na frente de Alex Werá, cacique da tribo Kaimbé cujo território situa-se na região de Massacará (a designação indica ´massa de cará´, um tubérculo tipo ´inhame´, da dieta nativa), lá nos ´certõens y mattos´ da Bahia.
Alex Werá é um dos Kaimbé que fez a migração para a cidade grande, neste caso São Paulo, para “adquirir conhecimentos e fazer o retorno com a nova bagagem sociocultural sem perder a ancestralidade do saber nativo”, como ele sublinha.
Conversar com Alex Werá é tomar conhecimento da existência dos povos nativos deserdados pelo colonialismo ibero-católico e que, através das ´missões´ jesuíticas sofreram o primeiro e decisivo marco temporal. “E seja lá o que as elites do Brasil decidirem, o certo é que estamos sob um genocídio contínuo para derrubar os povos ancestrais”, confirma o cacique.
A gente Kaimbé, que conheci no Rio de Janeiro de 1989, com o professor e poeta Francisco Igreja, foi uma daquelas que entre rios e rios arriba recebeu os primeiros aventureiros e colonos que adentraram os sertões baianos pela costa e, com eles, a violenta catequização jesuítica que adensou a colonização, que logo passou do norte ao sul da ´ilha´.
“Nunca tivemos, nem temos, condições para uma defesa adequada daquilo que somos. Fomos cercados por bala e espada, nossas mulheres estupradas para gerar outra gente com o sangue de quem nos oprime, mas vamos resistir, somos um povo de muitas tribos, ainda…”, diz Alex Werá.
E a história recente confirma as suas palavras. As elites político-judiciárias, com base na Tese de Copacabana, pela qual o juiz Gilmar Mendes, da suprema corte, acha que os povos nativos têm de ser mantidos à distância para não reivindicarem a urbanidade de Copacabana (…?!) e, por isso, deve o Brasil impor um Marco Temporal Indígena permitindo apenas que eles existam nas terras que possuíam até à data da publicação da Carta Magna de 1988 (essa mesma que oferece ´bondades´ sem fim a políticos e magistrados)… A tese mendesiana é um manifesto estupidamente nada republicano e ideologicamente fascista para impedir um povo de o ser!
Apesar de velha-nova circunstância geopolítica, que é um pensamento que também atinge comunidades brasileiras que solicitam independência em republicanismo municipal, o cacique kaimbé Alex Werá segue o seu caminho para “gerar uma conscientização em torno do reconhecimento dos povos nativos que são ancestralidade do Brasil…”.
Itaquaquecetuba (do tupi: lugar de taquaras, folhas que cortam), junho de 2023.




