“Para se falar da África que
enfrentou corajosamente os exércitos coloniais
de Manuel I e os de outros reis portugueses
que traíram a diplomacia de João II, é
preciso conhecer a história da
rainha N´Zinga – a Mulher que ousou exigir
aos colonos de Portugal e aos padres
do Vaticano a devolução dos escravos
africanos enviados para o Brasil…!”
ABDULLAH, Céline / bio-química. Moçambique/Mz.
BARCELLOS, João / escritor e consultor cultural. Sampa/Br.
in COTIA: UMA HISTÓRIA BRASILEIRA _ 2ª Ediç, 2017
Cris Jordão
A primeira vez que escutei falar de “N´Zinga, a fabulosa rainha d´Angola que ousou dizer não ao movimento escravocrata de portugueses e holandeses”, não foi em sala de aula, foi a minha mãe, poeta, que assistiu a uma breve palestra de João Barcellos (Casa de Portugal: São Paulo, 1991), durante a celebração do ´Dia do Escritor´, porque “a rainha N´Zinga era alfabetizada na sua língua e na portuguesa e fez disso uma diplomacia óptima e objectiva contra a opressão colonial que dizimava o seu povo” (idem). O autor luso-brasileiro, com quem hoje tenho a honra de compartilhar jornalisticamente, publicou o resumo dessa palestra no jornal ´TzL´ / ´Treze Listras´ (Cotia-SP, 1991) E, em 2016, abordou o mesmo assunto no capítulo ´congada´, na 2ª edição do seu livro ´Cotia: Uma História Brasileira´, em texto escrito com a parceria da moçambicana Celina Abdullah, que o segue culturalmente desde 1975, quando o conheceu nas palestras de Coimbra.
A verdade é que “João Barcellos é ele mesmo uma história que gera história”, como diz dele o amigo e fotojornalista carioca Mário G. de Castro. “Ele teve o cuidado de desembarcar na África colonizada por Portugal e pelo Vaticano para aferir o que foi a resistência da rainha N´Zinga”, lembrou-me Castro, quando o conheci em Cotia.
Ao final de 2022 soube que artista e produtora Jada Pinkett Smith, filmou um documentário para a ´Netflix´ sobre ´Jinga´/ N´Zinga, a rainha-guerreira de Dongo e Matamba (origens de Angola), e pude assisti-lo no início de 2023. Uma “obra-prima cinematográfica pelo conteúdo historiográfico acerca de N´Zinga e a plástica concebida não para mostrar, mas para demonstrar os equívocos sociopolíticos da humanidade que a autodestroem”, disse-me o mestre Barcellos, quando lhe enviei o rascunho deste artigo.
Ao tempo da rainha N´Zinga (1582-1663), que teve de conferenciar com padres do Vaticano e com tribos mercenárias que vendiam gente africana aos portugueses e holandeses para criar uma resistência minimamente estruturada, Angola era um mapa de aldeias destruídas pelas ações dos governadores Souza e Souto-maior (este, sob chancela do Vaticano para eliminar N´Zinga), e só não foi pior porque os portugueses expulsaram os holandeses que haviam tomado Luanda.
As investigações de João Barcellos acerca do assunto levaram-no a concluir que “o que se tem hoje por celebração afro-brasileira dita ´congada´ é um ultraje à memória de N´Zinga, porque ela batalhou pela liberdade d´Angola, e os afro-brasileiros carnavalizam tudo para celebrar a hipocrisia católica de uma princesa luso-brasileira que jogou os escravos na latrina reinol que eles mesmos carregavam”. Depois desta observação, o que dizer? Existem os prós e os contras, é verdade, mas a história documentada sempre acaba por prevalecer.

JORDÃO, Cris
Grupo de Debates Noética
Brasil, 2023



