ou: a colonização político-eclesiástica

1. da Ancestralidade Jesuítica na Questão dos Povos Nativos
Quando escuto, ou leio, acerca de “terra indígena de Massacará” eu não acredito no que escutei ou li. E isto, por que é uma narrativa colonial, não é a história dita pelo povo da ´Ilha do Brasil´.
Quando encontrei caciques tupi e guarani numa reunião no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 2011, confirmei algo muito importante e que me era “objeto intrigante”, como esboçava então: “O que se diz ser ´povo goayanaz´ é na verdade uma denominação e não um povo, e que quer dizer ´gente vizinha´ para tupis e guaranis”. Já o termo ´tapuia´ também não quer dizer tribo/nação, mas ´lugar de gente´.
Ora, quem percorrer as margens dos rios Vaza Barris e Itapicuru, nos ´certõens y mattos´ da Bahia vai perceber, primeiro, que essa região dita ´massacará´ é território nativo de gente Kaimbé e, segundo, que a gente Kaimbé, embora se define como ´gente dos certõens y mattos´ e o é, também se define de um tronco linguístico que liga tupi e guarani entre a lâmina d´água oceânica e aqueles ´certõens y mattos´, assim com à ´gente Tarairiú, que surgiu aos colonos europeus em todo o norte-nordeste.


Os rios Itapicuru e Vaz Barris, junto com o Real, o Poção e o Curaçá, formam a parte norte da bacia hidrográfica – e, aqui, nos Curaçá e no Poção, o território ribeirinho ´cai´ no Velho Chico que, ao sul, por leitos d´água como o Jacuípe, beijam a lâmina atlântica d´oceano imenso, o mesmo por onde a colonização ibero-católica adentrou a ´Ilha do Brasil´… Por tal mapa hidrográfico entende-se a junção linguística pela qual se fez logística imaterial de rotas, primeiro, nativas, e, depois, coloniais.
Óbvio, nem todos os povos nativos falam o mesmo ´falar´, mas todos se entendem até na divisão de ´entre comedores de guerreiros inimigos para lhes tomarem a alma guerreira´ e de ´não comedores´, como é regra entre tupis-guaranis e tupinambás, por exemplo. Daí que “…existem gentes nativas hostis a gente estranha, e gentes ´mossacara´, i. e., ´gentis´, como algumas das encontradas a nordeste e a norte na marcha colonial rios arriba, entre elas Kariri e Kaimbé …”, interpretação do poeta e jornalista português J. C. Macedo (in ´Gentes da Ilha do Brasil´: palestra. RJ, 1989).
O nome ´massacará´ vem de ´massa de cara´, uma batata tipo ´inhame´; e, nessa região, que não tem aves de penas grandes e coloridas, a gente Kaimbé utiliza a palha para fazer os seus cocares. Outra palavra muito comum entre gentes nativas chama a atenção: segundo vários estudiosos e também do tupinólogo brasileiro A. Lemos Barbosa (´Pequeno Vocabulário Tupi-Português´, RJ, 1951), a palavra ´mossacara´ significa ´pessoa hospitaleira, gentil´. As duas palavras confundiram muitos estudiosos por muito tempo.
Óbvio, também, e não esqueçamos “…o episódio de Sanches Brandam, da marinha mercante portuguesa que, em 1342, a sobreviver a uma tempestade que o lançou do golfo guineense a um litoral a mais de 370 milhas d´oeste, deu com a ´gente silenciosa´ (a gente Kariri) nas bandas da foz do ryo Siará” (João Barcellos – in ´páo vermelho, brasil´, ediç. 2017).
E assim foi que as gentes ´massacará´ e ´mossacara´ desde 1342 tornaram-se a rota da colonização entre o ´páo vermelho´ e a evangelização jesuítica. E mesmo em 1500, quando o rei luso enviou frota armada em segunda viagem à Índia, a frota fez curso largo para aportar na costa da outra banda atlântica, fincar o monumento da ´posse real portuguesa´ e, logo, retornar ao curso da Índia, pois, a ´Ilha do Brasil´ já gerava ´pau-brasil´ a Portugal e ao Vaticano desde 1343…
E retornemos a região dita Massacará. Ali, rios arriba, a gente portuguesa sob a benção da cristandade via jesuítas, tornou-se polo de atividades agropecuárias a partir do cerco e tomada das gentes nativas: em cada aldeia surgiu uma capela, marco-zero da civilização luso-católica enquanto as gentes nativas ficaram com duas alternativas, ou aceitarem a administração político-militar e a catequização jesuítica, ou serem dizimadas. Aconteceram as duas. As divindades tribais, que o eram na ordem cósmica, não tinham a ´força´ para submeter a gente invasora, além de que muita gente nativa, quer no litoral quer nos ´certõens y mattos´ acreditou em ´deuses´ vindos do mar… A colonização foi tão violenta, física e cultural, que até 1650 as gentes Kaimbé estavam arrebanhadas em missão jesuítica e de tão aculturadas já haviam incorporado a ´dança do boi´…! Para o professor e poeta Francisco Igreja, “…o povo nativo brasileiro precisa ainda perceber, como diz João Barcellos, a semiótica colonial que o dizimou, porque foi aculturado, os seus signos tribal-naturais tornaram-se símbolos do senhorio católico” (Sarau Cultural. RJ, 1989).
2. da Tese Copacabana & do Marco Temporal
E agora, eis-nos em 2022 com uma suprema corte de magistrados em conluio com a tese neocolonialista dita Tese de Copacabana (politicamente o ´endereço´ não poderia mais explícito…), pois, o Congresso, o Judiciário e as FA´s juntam-se para dar um freio à reivindicação dos povos nativos enquanto os partidos políticos, de direita e de esquerda, aproveitam o movimento da gente nativa para ´ordenharem´ ideologicamente a situação. E isto o é desde que os jesuítas elaboraram o seu próprio marco temporal latifundiário em meios às aldeias nativas: as missões de colonialismo eclesiástico.
Centenas de terras não foram demarcadas até hoje, ação político-judiciária golpista de magistrados da suprema corte que são indicados pelo interesse partidário do presidente da República e não no interesse do Brasil, ele mesmo… E a turma da Tese de Copacabana defende que as demarcações de terras dos povos nativos se limitem às terras ocupadas até à publicação de Carta Magna de 1988, e isso para favorecer o garimpo ilegal e a extração ilegal de madeira na área amazônica; e também, se a Carta Magna de 1988 é o marco-zero que defende o ´colarinho branco´ da corrupção institucional, o que esperar em defesa da ancestralidade dos povos nativos?!
O que se passa? Senhoras e Senhores, a federação brasileira neocolonialista pretende matar lentamente o que resta da matriz nativa da nação e negar que a gente mameluca (filhos e filhas de português com mulher nativa) sejam o marco-zero do Brasil.
Desde os tempos bandeirísticos e jesuíticos, ambos os movimentos genuinamente coloniais, a partir das primeiras missões jesuíticas, ainda no Séc. 16, e a partir do norte-nordeste e ´certõens y mattos´ adentro, determinaram a sorte dos povos nativos. Nesse mesmo sentido, o juiz Gilmar Mendes, da suprema corte, acompanhado por outros, decidiu simplesmente favorecer a espécie colonialista que já chorava pela possibilidade de “…perder os ricos apartamentos e mansões construídas em antigas terras de ´índios´, por exemplo, em Copacabana, em função de uma lei pró gente do mato” (como eu interpretei ao ler a tese golpista dos neocolonialistas” do Brasil-nação que desconhecem a sua ancestralidade).
Ora, Senhoras e Senhores, o juiz Gilmar Mendes comporta-se como Colombo que, ao chegar ao que seria chamado de América, disse que estava na tão desejada e rica Índia, e os povos a 370 milhas a oeste de Cabo Verde passaram a ser chamados de ´índios´. E é o que faz Gilmar Mendes. Ora, ´índios´ no Brasil?, pois, que assim seja, mas não podem reivindicar o Brasil…, eis a Tese de Copacabana, ou marco temporal ´indígena´ e sua jurisprudência precária e ideológica.
E assim é que cabe aos povos nativos a movimentação política em defesa do Brasil ancestral, porque esses povos foram, sim, a matriz que gerou a gente mameluca a partir dos colonos João Ramalho e Cosme Fernandes (este, o Bacharel de Cananeia) e, em segunda fase colonial, a miscigenação com os povos da África, tudo entre os Sécs 16 e 18.
A movimentação pelo “…sítio da ancestralidade nativa”, como dizia o professor Aziz Ab´Sáber, exige “…sabedoria sociopolítica para elucidar, à luz da história e da antropologia o que é o Brasil e de como os povos nativos devem ser preservados” (conversas c/ W. Paioli e João Barcellos, 2013).
É que, Senhoras e Senhoras, os povos nativos não precisam de ´marco temporal´, mas de consciência histórica que os defendam da agressão neocolonialista!



